O Brasil é improdutivo

Escrito por: Paola Salgado

E agora, o que dá pra fazer com isso dentro da empresa?

No último Post que eu publiquei, eu falei sobre a improdutividade no Brasil.
Falei do contexto geral, falei de política, falei de tudo aquilo que quem empreende aqui conhece bem.

E essa realidade continua a mesma.

O Brasil é improdutivo, sim.
A gente vive um cenário de baixa produtividade, custo alto e pouca previsibilidade.
Manter uma empresa formal no Brasil é caro, complexo e desgastante.

A carga fiscal é elevada, confusa, muda o tempo todo e consome uma energia enorme das empresas, energia que poderia estar sendo usada para produzir mais, organizar melhor e crescer.

Quem empreende sabe: boa parte do esforço não vai para evoluir o negócio, vai para conseguir sustentar a operação.

Mas depois de escrever aquele texto, me ficou uma sensação incômoda:
não dá pra parar só no diagnóstico.

Se a gente se dispõe a falar do problema, também precisa assumir a responsabilidade de discutir o que dá pra fazer com a parte dele que está sob o nosso controle enquanto empresa.

Porque entender o contexto é necessário.
Usar o contexto como desculpa pra tudo é perigoso.

O contexto político existe, mas ele não pode comandar a empresa

Não dá pra falar de improdutividade no Brasil sem falar de política.
Cenário instável, decisões ruins, insegurança jurídica, regras que mudam no meio do jogo. Tudo isso pesa.

E sim, enquanto empresários, a gente reclama, discute, vota, se posiciona.
Isso faz parte.

Mas sejamos honestos:
são poucos os empresários que realmente fazem algo grande o suficiente para mudar esse cenário.

Enquanto isso não acontece, e não acontece na velocidade que a gente gostaria, esse problema precisa ser tratado como o que ele é: contexto.

O erro é levar isso para dentro da empresa como justificativa constante.
Quando toda conversa estratégica termina no “aqui é difícil”, a empresa para de evoluir.

Em algum momento, esse assunto precisa sair do centro da mesa.
Não porque ele não exista, mas porque ele não está sob controle direto da empresa.

Quando a improdutividade deixa de ser do país e passa a ser da empresa

A partir daqui, a conversa muda.

Se você decidiu empreender no Brasil, os resultados da sua empresa passam, em grande parte, a ser responsabilidade sua, apesar do contexto.

E o erro mais comum que eu vejo é começar essa análise pelas pessoas.

Na prática, o problema quase sempre aparece antes.
Na estrutura.

Estrutura: o problema começa na empresa

Antes de falar de gente, precisa falar da empresa.

Estrutura é:

  • como o trabalho está organizado,
  • quem decide o quê,
  • onde começa e termina cada responsabilidade,
  • o que é cobrado de verdade e o que só existe no discurso.

Muita improdutividade nasce aqui.

Vejo empresas falando de alta performance como se isso fosse simples.
Todo mundo quer time forte, entrega alta, gente boa.

Mas pouca gente para pra responder o básico:
essa empresa comporta isso?

O modelo de negócio aguenta?
A estrutura sustenta?
A liderança dá conta?

Ou a empresa está exigindo um nível de entrega que ela mesma nunca organizou pra existir?

Além disso, tem a cultura do “foi permitido”.

Aquilo que não foi cobrado.
Aquilo que foi empurrado.
Aquilo que virou exceção e depois regra.

Isso vira um gargalo cada dia maior e mais caro

Depois da estrutura, vem a conta das pessoas

Só depois de olhar para a estrutura é que faz sentido falar de pessoas.

Porque muita gente que hoje “não entrega” foi contratada errado lá atrás.
Não por má intenção, mas por pressa, medo de perder oportunidade ou leitura errada de mercado.

Durante anos:

  • cargos foram inflados,
  • salários subiram sem base,
  • pessoas foram colocadas em cadeiras grandes demais para o repertório que tinham naquele momento.

Agora o cenário apertou.
E ficou claro quem tinha base e quem só estava ali porque o contexto permitia.

Existe, sim, um problema real com pessoas:

  • pouca qualificação,
  • baixa maturidade profissional,
  • dificuldade de lidar com cobrança,
  • expectativa desalinhada entre esforço e recompensa.

Mas apenas atacar, não vai resolver. A solução é tomar decisões

Dito tudo isso, um aviso que é super importante: gargalos não se resolvem todos ao mesmo tempo

Quando a gente começa a enxergar os problemas, na estrutura, nas pessoas, nas decisões, a reação mais comum é tentar resolver tudo de uma vez.

Muda processo, troca ferramenta, reorganiza área, cobra todo mundo ao mesmo tempo.
E nada anda.

Improdutividade não é bagunça geral.
Ela costuma estar concentrada em poucos pontos que travam o fluxo do negócio.

Empresa madura escolhe prioridade.

A pergunta é simples:

qual gargalo, se resolvido nos próximos 90 dias, mais destravaria a empresa?

O jogo não é trabalhar mais

É parar de ignorar o que trava

Produtividade não nasce de mais esforço.
Nasce de organização e decisão.

O Brasil é improdutivo, sim.
Mas empresas que evoluem não usam isso como escudo.

Elas perguntam:

o que está sob minha responsabilidade direta que eu estou adiando enfrentar?

Porque o jogo nunca foi trabalhar mais.
Sempre foi parar de operar em cima de gargalos não enfrentados.

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