Nos últimos anos, um tema tem aparecido de forma recorrente nas conversas com empresários, gestores e líderes de RH: a queda da produtividade no Brasil.
E 2025 escancarou isso de vez.
É importante começar deixando algo claro: as pessoas não deixaram de trabalhar. O que mudou foi o nível de entrega, de energia e de produtividade real. Ainda existem profissionais de alta performance, sem dúvida. Mas eles são, hoje, exceção, não regra.
E quando falamos de produtividade, precisamos sair da análise rasa. Não existe uma única causa. Logo, não existe uma solução simples. O que existe é um conjunto de fatores estruturais, culturais, emocionais e econômicos que precisam ser olhados em conjunto.
1. A narrativa política que colocou empresário contra trabalhador
Um dos fatores mais sensíveis, e menos debatidos com honestidade, é o ambiente político e narrativo que se consolidou no país.
Vivemos um momento em que o empresário é frequentemente retratado como vilão, enquanto o colaborador ocupa o lugar do “coitado explorado”. Essa narrativa gera um rompimento silencioso da relação de parceria que deveria existir entre quem empreende e quem trabalha.
O resultado prático disso é a cultura da lei do menor esforço:
“Faço o que sou pago para fazer, e, se possível, só isso.”
Isso é extremamente perigoso para o mercado. Empresário precisa de colaborador. Colaborador precisa de empresário. Essa relação não é ideológica, é econômica e de sobrevivência do país.
Pouco se fala, por exemplo, sobre:
- a carga tributária sufocante,
- a insegurança jurídica,
- as constantes mudanças na legislação,
- os custos indiretos que recaem sobre quem emprega.
Não se trata de dizer que leis são erradas, mas de reconhecer que a forma como são impostas transfere grande parte do custo estrutural do país para as empresas. Ao mesmo tempo, reforça-se a ideia de que “está sobrando dinheiro” na mão do empresário, o que, na prática, raramente é verdade.
Esse discurso desorganiza o mercado de trabalho, gera ressentimento e quebra a lógica básica de colaboração que sustenta qualquer economia saudável.
2. O paradoxo do custo: muito pago, pouco recebido
Outro ponto crítico: o custo do trabalho formal no Brasil é alto para quem paga e pouco percebido por quem recebe.
Hoje, o que efetivamente chega ao bolso do colaborador é muito menor do que o valor total que a empresa desembolsa. Isso gera frustração dos dois lados e fortalece um fenômeno cada vez mais comum: a valorização do trabalho informal.
Na prática, muitos profissionais:
- mantêm o CLT para garantir INSS, FGTS e 13º,
- mas direcionam seu maior esforço para atividades informais, onde o ganho líquido é maior.
O problema é que essa conta “invisível” não aparece. O custo está diluído e sustentado pelo empresário, o mesmo empresário que, na narrativa dominante, é visto como alguém que “não quer pagar mais”.
3. O erro geracional não resolvido
Falamos muito sobre geração Z, geração Y, geração X, mas falamos pouco sobre como integrá-las de forma produtiva.
O mercado falhou em algo básico: colocar gerações para trabalharem juntas.
Parte da geração mais jovem entrou no mercado sem maturidade emocional, sem repertório profissional e com altas demandas de reconhecimento. Ao mesmo tempo, não houve um movimento estruturado de mentoria intergeracional.
O resultado?
- profissionais jovens emocionalmente instáveis,
- alta necessidade de validação,
- queda de produtividade diante de frustrações,
- perda de energia organizacional.
Não se trata de dizer que a geração Z não tem talentos, ela tem. Mas talento sem estrutura, referência e acompanhamento não vira entrega consistente.
4. A supervalorização precoce dos jovens
Aqui está um erro grave que o mercado cometeu, e agora está pagando a conta.
Durante anos, empresas abriram mão de profissionais experientes (vistos como caros) para apostar em jovens mais baratos, sob a promessa de mais energia, inovação e velocidade.
O problema? Colocamos essas pessoas em cadeiras para as quais elas não estavam prontas.
Juniors passaram a ocupar funções de pleno e sênior.
Sem base técnica, sem vivência e sem suporte.
O resultado não é culpa desses profissionais, é consequência de decisões estratégicas equivocadas. Hoje, muitos não conseguem entregar porque foram posicionados além do seu nível de maturidade.
5. O trabalho híbrido que ainda não aprendemos a operar
Cinco anos após a pandemia, precisamos admitir: o modelo híbrido ainda não foi dominado pela maioria das empresas.
Cada organização funciona de um jeito, mas o fato é que ainda não conseguimos responder plenamente:
- como garantir produtividade no home office,
- como equilibrar presença física sem desperdício de tempo,
- como medir entrega sem microgestão.
O presencial traz proximidade, mas também desgaste logístico.
O remoto traz flexibilidade, mas exige disciplina e maturidade.
A verdade é que ainda estamos em fase de ajuste, e muitos modelos foram implementados sem estratégia clara, apenas como reação.
6. Qualidade de vida não é trabalhar pouco
Entramos, também, numa confusão perigosa: misturar qualidade de vida com baixa entrega.
Trabalhar com qualidade de vida não significa trabalhar menos. Significa trabalhar melhor, com mais consciência e autonomia. O problema é quando se cria a ideia de que esforço e saúde são opostos.
Não são.
O que adoece não é o trabalho em si, mas:
- a falta de sentido,
- a desorganização,
- a ausência de cultura,
- a desconexão entre esforço e reconhecimento.
7. Um país emocionalmente mais doente
Por fim, precisamos falar do óbvio: o Brasil está mais doente emocionalmente.
A pandemia deixou marcas profundas. Somam-se a isso:
- hábitos de vida ruins,
- alimentação inadequada,
- aumento do estresse,
- uso excessivo de substâncias,
- baixa prevenção em saúde.
Muitas vezes, o trabalho vira o “culpado final”, quando na verdade é apenas o gatilho. Isso impacta diretamente a produtividade, e não há como ignorar esse fator.
A conclusão que precisa ser dita com clareza
Diante de tudo isso, uma coisa é certa: não existem soluções pontuais para problemas estruturais.
Produtividade não se resolve com uma política isolada, um benefício novo ou uma mudança superficial. Ela exige olhar sistêmico, coragem para rever decisões e maturidade para enfrentar temas culturais.
Mas, para mim, existe um ponto central: precisamos reconstruir a cultura de parceria entre empresário e trabalhador.
Enquanto o empresário for visto como vilão e o colaborador como vítima permanente, o Brasil continuará andando contra a própria economia. Cultura move negócios. E a cultura do Brasil determina a produtividade do Brasil.
Essa mudança não é responsabilidade apenas do governo ou dos colaboradores. Nós, empresários, também precisamos assumir esse papel, liderar esse discurso e construir ambientes mais maduros, claros e responsáveis.
Não é a solução final.
Mas, sem dúvida, é o primeiro degrau para que todas as outras mudanças façam sentido.