Artigo desenvolvido por Mariana Makluf.
Gosto muito de uma música do Billy Joel chamada Vienna, que fala, de uma maneira muito delicada, sobre a pressa de chegar lá. Sobre querer crescer e alcançar o sucesso antes que seja tarde demais. E talvez seja justamente por isso que ela combine tanto com a forma como aprendemos a viver o trabalho, ou viver para o trabalho.
Em algum momento, estar cansado passou a significar que estamos nos esforçando, que somos comprometidos, que estamos crescendo. A agenda cheia virou símbolo de importância, trabalhar até tarde virou demonstração de dedicação, não tirar férias virou prova de que somos indispensáveis (ninguém é!). E, aos poucos, a exaustão começou a ganhar uma espécie de status, um sinal de que estamos “chegando lá”.
A gente vai adiando a vida, tão focados em entregar o que foi pedido e em sermos reconhecidos, que todo o resto fica em segundo plano. Mas sempre existe uma próxima entrega. Depois dela vem outro projeto, outra meta, outra promoção, outra responsabilidade. Quando finalmente chegamos onde queríamos, já existe um novo lugar para onde precisamos correr, mas se estamos constantemente olhando para o próximo passo, é fácil esquecer que existe uma vida acontecendo enquanto tentamos chegar lá.
É aí que Vienna parece fazer uma pergunta muito simples: e se não precisarmos chegar tão rápido?
Essa pergunta não é um convite à falta de ambição. Podemos querer crescer, conquistar, liderar, ganhar mais, mudar de carreira e ter sonhos maiores. A questão é outra: será que precisamos transformar cada etapa da nossa vida em uma corrida contra o tempo?
O problema é que, no meio dessa corrida, a exaustão começa a parecer normal. Existe uma diferença entre trabalhar muito em determinado período e viver permanentemente no limite. Existem semanas difíceis e projetos que exigem mais. Isso faz parte da vida profissional. O problema começa quando aquilo que deveria ser ocasional se transforma em rotina: quando descansar gera culpa, quando dizer “não” parece falta de comprometimento, e quando a disponibilidade constante passa a ser uma expectativa silenciosa.
É nesse ponto que precisamos diferenciar alta performance de exaustão. Alta performance não deveria depender de estar permanentemente no limite. Um profissional precisa conseguir tomar boas decisões, pensar com clareza, priorizar e manter consistência ao longo do tempo. Quando estamos exaustos, porém, tudo parece urgente. Sobra menos espaço para pensar, criar, planejar, e passamos a simplesmente estar ali.
Talvez seja por isso que a romantização da exaustão seja tão perigosa. Ela não aparece apenas quando alguém diz que está exausto como se isso fosse uma espécie de troféu. Também está presente quando sentimos culpa por sair no horário, quando achamos que precisamos estar disponíveis o tempo inteiro ou quando acreditamos que desacelerar significa ficar para trás.
Estamos tão preocupados em chegar ao próximo patamar que esquecemos de olhar para onde estamos. Talvez seja essa a mensagem de Vienna que mais me toca: a ideia de que não precisamos ter tanta pressa para viver.
A carreira não precisa acontecer toda de uma vez. Nem toda oportunidade precisa ser aceita. Nem toda promoção precisa acontecer imediatamente. Algumas pausas não representam retrocesso. Descansar não significa desistir. E dizer “agora não” pode ser, inclusive, uma escolha de maturidade. Uma carreira é construída ao longo dos anos. A vida também.
Talvez a pergunta mais importante não seja o quanto conseguimos suportar para chegar ao próximo lugar, mas que tipo de pessoa queremos ser quando chegarmos lá. Porque não adianta conquistar o cargo, a promoção, o reconhecimento ou o salário que desejávamos se chegarmos ao outro lado sem energia, e sem saúde, para aproveitar qualquer uma dessas coisas.
Talvez exista um espaço entre a ambição e a exaustão. Entre acelerar e parar. Entre querer crescer e aceitar que algumas coisas levam tempo. Talvez exista uma “Vienna” no caminho. E talvez, de vez em quando, a gente precise desacelerar o suficiente para perceber que não estamos atrasados. Estamos apenas vivendo a nossa própria trajetória.